A Justiça de São Paulo condenou o policial militar Kaio Lopes Raimundo a 21 anos, 9 meses e 10 dias de prisão, em regime fechado, pelo homicídio qualificado por motivo fútil do mecânico Clayton Juliano da Silva, de 38 anos. O crime ocorreu em julho do ano passado, na Avenida Barão de Mauá, na Grande São Paulo, durante uma discussão no trânsito.
Na tarde de um domingo, Kaio, de 32 anos, pilotava uma moto e obstruía a passagem da via enquanto conversava com o condutor de outro veículo. Clayton, que dirigia o carro acompanhado da família, buzinou para pedir licença. A reação do agente deu início ao episódio de violência.
Segundo o relato da esposa do mecânico, Cristiane Maria da Silva, o policial perseguiu o veículo por alguns metros e iniciou o ataque.
“Meu esposo pediu passagem e buzinou. O rapaz [Kaio] provavelmente não gostou da situação de ele ter pedido licença“, disse Cristiane.
Ela relatou que o PM se aproximou da janela do passageiro e usou spray de pimenta contra seus olhos. Em seguida, com o automóvel ainda em movimento, disparou quatro vezes. Um dos tiros atingiu a nuca de Clayton, que morreu no local, fazendo com que o veículo desgovernado invadisse a contramão e colidisse contra um muro. No banco traseiro, o sobrinho do casal, de apenas 9 anos, também foi atingido por um dos disparos. A sogra de Clayton também estava no veículo no momento da abordagem.
O policial militar foi preso em flagrante. Durante depoimento à Polícia Civil, Kaio sustentou ter agido em legítima defesa, alegando ter sido fechado pelo carro de Clayton e derrubado. Ele afirmou ter ouvido ameaças de morte e interpretado um gesto do motorista como a iminência de um ataque:
“Me senti gravemente ameaçado, sem saber se estava sendo vítima de um assalto ou de alguma outra agressão. Não houve discussão prévia ou algo que justificasse tal comportamento. Aquele movimento da mão, enquanto ele me ameaçava de morte, me aterrorizou. Diante da ameaça à minha vida, reagi em legítima defesa. Saquei minha arma e atirei três vezes.”
Kaio também negou a utilização de spray de pimenta, declarando que não portava o produto. A perícia e a investigação, no entanto, confirmaram que o mecânico não portava nenhuma arma no momento do crime. A defesa do PM não foi localizada pela reportagem para comentar a decisão judicial.
Contexto da letalidade policial em São Paulo
O caso se insere em um panorama de alta na letalidade policial no estado. Segundo dados da 19ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, São Paulo registrou um aumento de 61% nas Mortes Decorrentes de Intervenção Policial (MDIP) em 2024, acumulando 813 vítimas, ante 504 no ano anterior. O crescimento ocorreu na contramão da média nacional, que apontou queda de 3,1% no mesmo período.
Para a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, a escalada desses índices influencia diretamente o avanço das mortes violentas intencionais no território paulista.
Em nota oficial, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) declarou que as ocorrências de MDIP registraram recuo de 3,86% nos primeiros cinco meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2024, ressaltando que “todos os casos dessa natureza são investigados pelas corregedorias das polícias Civil e Militar, com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário”.

