Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, registram uma relação próxima entre o banqueiro e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). O conteúdo das conversas foi divulgado nesta quinta-feira (24), pela revista Veja.
Os registros incluem declarações de amizade, combinações para festas e contatos envolvendo outros nomes de Brasília. Em diferentes momentos, Alcolumbre trata Vorcaro como “meu amor” e afirma ser “irmão” do banqueiro “pra vida toda”.
Uma das conversas ocorreu após a eleição de Alcolumbre para a presidência do Senado, em 1º de fevereiro de 2025. Naquele dia, Vorcaro parabenizou o senador, desejou sucesso na nova etapa e acompanhou a mensagem com emojis de coração.
Alcolumbre respondeu no dia seguinte. “Fala meu amor!”, escreveu. Na sequência, agradeceu pelo “carinho e amizade fraterna” e encerrou a mensagem com “Gratidão!”.
A proximidade volta a aparecer em uma troca de 30 de março daquele ano. Alcolumbre disse a Vorcaro: “Sou seu irmão!!!” e “Pra vida toda!!!”. O banqueiro respondeu com cinco corações e escreveu que também era irmão do senador, acrescentando: “A qualquer tempo pra qualquer coisa” e “Nunca vou esquecer”.
Meses depois, em 17 de julho de 2025, Vorcaro voltou a procurar o presidente do Senado. “Fala irmaozao! Se tiver notícias do nosso amigo me chame! Abração”, escreveu.
Alcolumbre respondeu que “estava em cima” do assunto e, depois, enviou outra mensagem: “Pressão!!!”. Vorcaro reagiu com um emoji de mãos juntas. O material divulgado não esclarece quem era o “amigo” mencionado nem qual questão estava sendo tratada.
Festas privadas
As mensagens reveladas pela Veja também incluem diálogos sobre festas privadas.
Parte das conversas ocorreu em um grupo de WhatsApp chamado “Macallan”, nome de uma marca escocesa de uísque. Entre os integrantes estavam Vorcaro, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e o empresário Lucas Kallas.
Em 26 de outubro de 2023, Vorcaro escreveu no grupo: “Aquela de 3 metros estará lá, Fábio”. Faria respondeu: “A dupla, né. Foda que o Davi aprendeu a falar pelo Google tradutor e pode assustar a menina”.
Vorcaro reagiu com risadas e escreveu “Bonde do Tigrão”. Em outra mensagem, Faria afirmou que “Davi falou que está com dança nova”. Kallas respondeu com risadas.
Segundo a reportagem da Veja, uma das festas citadas nas conversas foi organizada para receber Alcolumbre. Em um diálogo direto com o senador, Vorcaro encaminhou o endereço do evento e orientou os convidados sobre horário e vestimenta: “Me avisem a hora que chegam. Vao cedo. Traje todo preto pra festa”.
Outro registro, de outubro de 2024, traz uma referência a Alcolumbre em meio às conversas sobre as confraternizações. Depois de Vorcaro afirmar ao advogado Luiz Rennó que havia precisado organizar “a confusão toda”, aparece no material a mensagem: “Davi Alcolumbre de mochila bile (sic) com canudo com vodka”.
“Pacto com Davi”
Alcolumbre voltou a ser mencionado em mensagens trocadas entre Vorcaro e Fábio Faria em 28 de março de 2024.
Na conversa, os dois tratavam de um encontro paralelo a um fórum jurídico que seria realizado em Londres no mês seguinte. Vorcaro demonstrou preocupação com a possibilidade de o evento deixar de ser reservado e disse que algumas pessoas estariam viajando por causa das mulheres que participariam da confraternização.
Faria sugeriu que, após um primeiro encontro, parte do grupo fosse para uma reunião menor. “Pegar uma suíte em outro hotel. Deixa umas 4 lá”, escreveu. Vorcaro respondeu: “pode ser”.
Na sequência, Faria acrescentou: “E fazemos um pacto com Davi q só pode falar pro careca”.
De acordo com mensagens anteriores analisadas pela reportagem, “careca” era uma forma utilizada por Vorcaro e Faria para se referirem ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Após a publicação, Fábio Faria afirmou à Veja que a conversa se referia à reserva de quatro suítes para uma viagem a Londres com empresários que avaliavam uma possível participação minoritária no clube inglês Queens Park Rangers. Segundo ele, a negociação não avançou. Faria também declarou que o assunto não tinha relação com Alcolumbre e que o senador não estava previsto naquela viagem.
Galípolo e a negociação do Master com o BRB
O material divulgado também contém uma troca de mensagens entre Vorcaro e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), em julho de 2025.
Naquele período, a negociação para a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) enfrentava entraves no Banco Central.
Vorcaro disse a Motta que havia perguntado a “Davi” sobre o assunto, mas que o presidente do Senado ainda não tinha informações.
Motta respondeu dizendo que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, havia combinado de ir à casa de Alcolumbre após o encerramento de uma reunião.
“Galípolo ficou de ir lá para casa de Davi quando encerrasse a reunião. Eu estava decolando quando Davi me ligou para dizer isso”, escreveu Motta.
Vorcaro respondeu que parecia que a reunião ainda estava acontecendo. Motta reagiu com um emoji de risada e afirmou que também havia sido informado de que seria um encontro demorado. As mensagens divulgadas não detalham se a reunião entre Galípolo e Alcolumbre ocorreu nem qual seria o tema da conversa.
CPI do Master
A divulgação das conversas ocorre em meio às cobranças enfrentadas por Alcolumbre para dar andamento a uma comissão parlamentar destinada a investigar o caso Banco Master.
Em maio, parlamentares cobraram a leitura de um requerimento para criação de uma CPMI sobre o banco. Alcolumbre afirmou que o momento da leitura caberia ao presidente do Congresso e disse que a sessão realizada naquela ocasião tinha outra matéria como prioridade.
Em junho, ao voltar a comentar as cobranças, o presidente do Senado afirmou que havia interesse eleitoral na pressão pela comissão. Alcolumbre argumentou ainda que Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça já atuavam nas investigações relacionadas ao Master.
O impasse também chegou ao Supremo Tribunal Federal.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) apresentou um mandado de segurança para tentar obrigar Alcolumbre a dar andamento à instalação de uma CPI. Nesta quarta-feira (23), o ministro Cristiano Zanin negou o pedido de liminar.
Zanin considerou que os documentos apresentados não eram suficientes, naquele momento, para demonstrar a alegada omissão do presidente do Senado na tramitação do requerimento. O ministro, no entanto, pediu manifestações do Senado, da Advocacia-Geral da União e da Procuradoria-Geral da República antes da análise definitiva do processo.

