O bispo JB Carvalho, fundador da Comunidade das Nações, igreja frequentada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), publicou em seu livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva uma crítica ao culto à chamada “Rainha dos Céus”.
Em um trecho reproduzido pelo pastor Sérgio Lourenço, Carvalho afirma: “Deus odeia o culto a Rainha dos Céus”. A passagem faz parte de uma interpretação dos capítulos 7 e 44 do livro bíblico de Jeremias.
Segundo a leitura apresentada pelo bispo, a “Rainha dos Céus” seria uma divindade feminina cultuada pelos habitantes de Judá, que ofereciam incenso, alimentos e libações em sua homenagem. Carvalho relaciona essa prática à ira de Deus e aos acontecimentos narrados no Antigo Testamento, incluindo o exílio do povo judeu na Babilônia.
No texto, o autor sustenta que a adoração à entidade representaria uma tentativa de dividir com outra figura a glória que, segundo a tradição cristã, deveria ser atribuída exclusivamente a Deus.
Críticas à devoção a Nossa Senhora
Em outros trechos atribuídos à mesma obra, Carvalho relaciona a devoção católica a Maria a antigas religiões pagãs. Uma das passagens apresenta uma narrativa envolvendo Ninrode, Semíramis e Tamuz e sustenta que o culto a essas figuras teria dado origem a representações posteriormente associadas à tradição mariana.
O bispo também estabelece uma relação entre a imagem de uma mãe segurando uma criança e a representação católica de Nossa Senhora com o menino Jesus.
Outra passagem, intitulada “Voltemos à História”, sustenta que celebrações dedicadas a antigas divindades femininas teriam sido incorporadas posteriormente a festas marianas.
Essas afirmações são apresentadas por Carvalho como uma interpretação religiosa. A associação direta entre a devoção católica a Maria e o culto a Semíramis, porém, não é consenso histórico estabelecido.
A própria Igreja Católica estabelece uma distinção entre a adoração, reservada a Deus, e a veneração dedicada aos santos e a Maria. Por isso, a expressão “Rainha dos Céus” não possui, no catolicismo, o mesmo significado atribuído por Carvalho em sua interpretação bíblica.
Ligação com Flávio Bolsonaro
A relação entre Flávio Bolsonaro e JB Carvalho ganhou maior visibilidade nos últimos anos. Flávio e sua esposa, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações, em Brasília, em 2024.
O senador também escolheu a igreja para sua primeira aparição pública após ser anunciado pelo pai, Jair Bolsonaro, como candidato à Presidência, em dezembro de 2025. Na ocasião, Flávio compareceu ao culto acompanhado da esposa. Segundo integrantes da própria igreja, ele é frequentador assíduo da comunidade.
A ligação é mencionada também em reportagens sobre a pré-campanha. A Folha de S.Paulo descreveu Flávio como ligado à Comunidade das Nações, liderada por JB Carvalho.
Declaração sobre Jesus Cristo
A discussão ganhou novo contexto após uma declaração feita por Flávio em agosto deste ano. Em vídeo publicado nas redes sociais, o senador afirmou que, caso seja eleito presidente, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
A fala passou a ser relacionada, nas redes sociais, à discussão sobre Nossa Senhora Aparecida e à posição do candidato em relação ao catolicismo. O tema provocou manifestações e interpretações distintas entre grupos religiosos.
A declaração, no entanto, não significa que Flávio tenha adotado especificamente as interpretações de JB Carvalho sobre a “Rainha dos Céus”. A ligação documentada entre os dois é religiosa e institucional, por meio da Comunidade das Nações.
Livros de JB Carvalho chegaram à família Bolsonaro
A proximidade entre o bispo e a família Bolsonaro também apareceu em episódios envolvendo livros do religioso.
Em novembro de 2025, Flávio levou ao pai, durante uma visita à Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, um exemplar de Metanoia: A chave está em sua mente, de autoria de JB Carvalho.
Em janeiro de 2026, Michelle Bolsonaro também levou ao ex-presidente Jair Bolsonaro uma obra do bispo, A jornada de meninos a homens.
Os episódios reforçam a presença das obras de Carvalho no círculo familiar dos Bolsonaro, enquanto Flávio mantém vínculo público com a Comunidade das Nações.

